Este blog não estará restrito a um assunto específico. A ideia é produzir uma espécie de revista digital. Como não é um blog profissional, alguns temas demorarão a ter novas postagens, mas sempre aparecerão. Claro que as provocações recebidas através dos comentários serão muito úteis na formação da pauta.
Opine, comente, questione, indique.
"O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente"
Montesquieu
Corrupção existe em todos os países. Mas a ideia que se tem é que o Brasil é um país muito corrupto. Alguns desavisados chegam a dizer, inclusive que o Brasil está, nos últimos anos, mais corrupto do que jamais esteve... Mas...
Um livro interessante (e de fácil leitura) sobre o tema é "Corrupção", de Marco Morel, que aborda vários casos de corruptos durante toda a história do Brasil, iniciando pelo primeiro governador geral, o português Tomé de Souza, que fez "arranjos" para que as coisas funcionassem por aqui...
Curiosamente, o pai do autor do livro é citado na música Alvorada Voraz do RPM. Foi o repórter Mário Morel aquele que noticiou a extorsão policial que sofriam os comerciantes do Rio de Janeiro.
Na versão original (de 1985) a estrofe é:
"O caso Morel O crime da mala Coroa-Brastel O escândalo das jóias E o contrabando E um bando de gente Importante envolvida..."
Os casos de mal feitos são tão abundantes que há uma versão (do início dos anos 2000) em que a estrofe ficou:
"O caso Sudan,
Maluf, Lalau,
Barbalho Sarney,
Ninguém paga o Jornal,
é a propaganda, pois nesse pais, é o dinheiro quem manda"
Aliás, os personagens citados na paródia, também são citados no livro...
Pra terminar, mais uma "frase do dia", que contradiz, em certo sentido, a frase de Montesquieu
:
Frei Betto
"As pessoas, quando chegam ao poder não se transformam, elas se revelam"
Li o livro "Gurgel", de Anderson de Assis Nunes, da coleção Clássicos do Brasil, publicado pela editora Alaúde. Gostei. É um pouco ufanista, mas é bem legal para conhecer a história de uma (a?) das mais importantes marcas de automóveis brasileiras... Nem pretendia fazer postagem sobre esses livrinhos...
Então comecei a ler o "Karmann-Ghia", de Paulo Cesar Sandler. E pra minha surpresa, o livro é mau escrito e tenta se aventurar em política. Repetindo sandices que apenas os mais ignorantes seriam capazes de verbalizar.
Na página 28, escreve desnecessariamente: "Luiz Segre precisava de novos sócios capitalistas, (...)". Quer dizer então que se o dinheiro viesse de um anarquista ou socialista, o dono da Ghia seria impedido de continuar seus negócios? Mas esse trecho não é assustador!
Assustador é o que está na página 9: "Em 1932, [Ferdinand] Porsche assumiu o projeto de um Volksauto e ordenou a elaboração de um carro pequeno, feito sob os mesmo princípios dos grandes, à diretoria técnica. O engenheiro acreditava que o novo governo seria uma entidade mantenedora melhor que o sistema capitalista e esperava que ele financiasse um conversível (...)". No parágrafo seguinte: "Inicialmente o governo nacional-socialista recusou-se a pagar pelo projeto do conversível, alegando que isso não cabia a uma empresa pública, cuja função era fabricar carros populares (...)"
É evidente que o autor não afirmou peremptoriamente que o nazismo era socialista, apesar de induzir o leitor incauto a essa conclusão. Vamos aos pontos...
Segundo Philip Raby, autor de "O grande pequeno livro da Porsche", da editora Escrituras, o projeto do Volksauto pertencia a uma empresa privada (capitalista), chamada Zündapp (até mesmo porque em 1932, os nazistas não tinham conseguido tomar o poder - o que veio a acontecer em 1933). Ainda mais: o que Hitler fez foi facilitar as coisa para as empresas capitalistas, pois deixou de taxar motocicletas e automóveis e, diferente do que afirma Sandler, Raby diz "Além disso, o governo estava disposto a patrocinar a construção de automóveis de Grand Prix para ajudar a promover a superioridade alemã. Ferdinand Porsche conseguiu um contrato de 500.000 marcos para desenvolver estes automóveis de corrida em conjunto com a Auto Union." (p. 10) É bom lembrar que Porsche já tinha uma empresa e a Auto Union também era uma empresa capitalista.
O trecho mais evidente do enviesamento intelectual está na sugestão de que o nazismo é antagônico ao capitalismo, o que é um disparate, já que as empresas privadas continuaram a ser privadas, recebendo incentivos governamentais. O nazismo era um sistema totalitário e, como tal ditava os caminhos da economia (numa realidade de miséria e degradação, decorrente do liberalismo), mas, se isso for justificativa para anunciar um governo anti capitalista (que mantém o capital???), o governo de Franklin D. Roosevelt, nos Estados Unidos, também precisa ser taxado de anti capitalista, aliás, como todos os governos que se seguiram...
Para constranger ainda mais os portadores de 3 neurônios, Sandler usa o nome do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, associados aos termos pública e popular ("alegando que isso não cabia a uma empresa pública, cuja função era fabricar carros populares"), querendo fazer crer que, simplesmente porque o partido nazista tinha como parte de seu nome o termo Socialista, lhe confere a postura de socialista...
Isso quer dizer então que todo mundo que tem como nome João é homem, certo? Mesmo que seja uma Maria João! Ou que o PL (partido liberal, hoje PR) tenha sido de fato liberal, mesmo no seu mais glorioso momento, quando elegeu o vice-presidente na chapa de Lula? Você assume então que por contar com o companheiro e vice-presidente José de Alencar, Lula foi o mais liberal de todos os presidentes????
Não terminei com o livro ainda, mas se achar mais sandices, atualizo...
Fahrenheit 451 é um livro que foi capaz de provocar, em mim, uma estranha reflexão sobre como formamos imagens mentais acerca de uma história narrada apenas com palavras.
Se ao ler outros livros, criava imagens complexas, como que pintadas por um gênio dos pinceis, ao ler a história do bombeiro Guy Montag, tive a impressão de ter visto os garranchos de uma criança em idade pré-escolar.
Isso se refere mais à ambientação e à maneira como acontece a passagem de uma cena a outra. Em que pese a parte final do livro, depois que Montag foge da casa de seu mentor, Faber, melhora muito nesse sentido.
O livro também me causou irritação em relação ao tipo psicológico dos principais personagens (Montag, principalmente, e Beatty, o chefe dos bombeiros). Além de contar com muitas "reflexões", que a meu ver são (ouu estão) batidas (mas aí a culpa pode ser minha, por viver onde vivo - mas se isso for verdade, o livro é um livro "datado", ou seja, que não merece ser posto entre os clássicos).
De fato eu gostei de uma cena, que me causou angústia, quando Montag está sendo vigiado por Beatty (ou pelo Sabujo - um cão androide (?)) enquanto tenta absorver o máximo dos livros proibidos ou escondê-los em segurança. Gostei também das citações de Alexander Pope e da parte final, quando senti que estava sendo aquecido pelo fogo, junto aos "homens-livros".
Certamente é um livro que tem valor para quem ainda não refletiu sobre democracia, o papel das minorias, liberdade de expressão e a vulgarização da cultura, mas dificilmente eu indicarei.
O professor Faber, personagem do livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, diz para Montag:
"Mas lembre-se de que o capitão está alinhado com os inimigos mais poderosos da verdade e da liberdade, com o rebanho impassível da maioria. Meu deus, a terrível tirania da maioria".
Imediatamente lembrei das ovelhas descritas no livro "Revolução dos Bichos", de George Orwell, que só faziam balir palavras de ordem, de acordo com o que lhes diziam os porcos que estavam no poder.
Lembrei também de Nélson Rodrigues: "Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar."
Por fim, penso na voz uníssona que paira nas ruas nos dias de hoje. Por vezes escuto balidos. Por vezes escuto latidos, como se fossem os latidos dos cães treinados pelos porcos para levá-los ao poder!
A democracia, para existir, precisa garantir a existência e a voz das minorias!
MAS, ATENÇÃO!!!
Isso não quer dizer que as minorias estejam isentas de culpa quando se fala das falhas dos sistemas democráticos. O livro (Fahrenheit 451) aborda isso também, pois foi, em parte, o sectarismo de minorias (e os excessos do que chamamos hoje de "politicamente correto") que levou ao caos intelectual apresentado na história.
Na coda* do livro, o autor, Ray Bradbury destaca (fazendo referência à destruição provocada pelo ódio conjunto de várias minorias):
Ray Bradbury
"Cada minoria (...) acha que tem o direito e o dever de derramar o querosene e acender o pavio."
Tudo, evidentemente é uma questão de contexto...
*Coda é a parte final, que arremata uma música. Em inglês também designa as cenas pós créditos que aparecem depois do filme. Eu diria que é o "chorinho" que ganhamos após termos bebido o copo de garapa.
O personagem principal de Fahreinheit 451 é um bombeiro, chamado Guy Montag, de um futuro (em relação a quando foi escrito) distópico, em que os livros são proibidos. São, justamente, os bombeiros que têm a tarefa de incinerá-los.
Montag tem uma crise de consciência em relação ao seu trabalho e acaba surrupiando alguns livros que ele deveria ter queimado, então procura ajuda de um velho professor, Faber. Sua justificativa para buscar ajuda: "Eu só quero alguém para ouvir o que tenho a dizer. E talvez, se eu falar por tempo suficiente, minhas palavras façam sentido".
Montag precisa, entretanto, enfrentar as investidas do capitão dos bombeiros, Beatty, que cita Alexander Pope (poeta inglês do século XVIII): "Palavras são como folhas, e onde mais abundam, é raro encontrar embaixo muitos frutos da razão".
A princípio, as duas frases podem parecer antagônicas! Mas não são! Um palavrório matraqueado loucamente, realmente acaba com a possibilidade de encontrarmos os "frutos da razão". Mas a capacidade de verbalizar o que pensamos é fundamental para que nosso pensamento se organize e produza os resultados esperados... Tudo é uma questão de contexto!
Infelizmente não achei uma versão em português... Pode ser filosofia de boteco, mas acho que tem muita validade...
No livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, há uma citação de Alexander Pope (poeta inglês do século XVIII), que trata exatamente disso:
"Conhecer pela metade é uma coisa perigosa. Beba até perder o fôlego, ou não mate a sede na fonte das musas; ali as correntes rasas intoxicam o cérebro, mas, em grande parte, beber nos deixa sóbrios novamente".
Alguns filósofos dizem que o mundo é espelho, porque é através do que acontece no mundo que podemos pensar a respeito daquilo que somos, o que queremos, como reagimos frente aos problemas do mundo... Nesse mesmo sentido, a arte assume importância ao nos provocar...
A frase do dia tem tudo à ver com essa ideia:
“Livros constituem ‘experiências de verdade’, quando nos
desvendam e configuram uma verdade ignorada, escondida, profunda, informe, que
trazemos em nós, o que nos proporciona o duplo encantamento da descoberta de
nossa verdade, incorpora-se a ela e torna-se a nossa verdade”
O escritor Eduardo Galeano ficou mais conhecido pela obra "AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA". Recomendo decididamente sua leitura!
Mas há um livro infantil que eu gostei muito, chamado A PEDRA ARDE. Nele conhecemos a história de um moleque chamado Carassuja, que encontra uma pedra que queima aquilo que nela encostar, mas que tem um certo poder mágico, e um velho guardador de pomar. Não sei qual seria o final do livro, se ele tivesse sido escrito ontem, mas é como eu vejo que o mundo deve ser encarado. Também não posso dizer se faria diferente do Velho Guardador de Pomar...
De verdade, era neste livro que eu gostaria de ter recebido o autógrafo...
Eu deveria ter feito esta postagem logo que terminei o livro, mas não fiz.. Então esta postagem será mais superficial do que poderia ser...
O livro trata, a meu ver, de quatro coisas distintas:
* Reflexões do autor (Milan Kundera), sobre a vida e sobre questões políticas que envolvem seu país de origem (o livro foi publicado quando ele já morava na França e não mais na antiga Tchecoslováquia);
* Um romance principal, focado nas dificuldades de relacionamento entre um médico e uma graçonete (Tomas e Tereza);
* Um romance secundário entre Tomas e uma pintora (Sabina), mas que acaba se desdobrando em reflexões e ações desvinculadas do romance principal (que tem Sabina como protagonista);
* Um segundo romance secundário entre Sabina e um Professor universitário (Franz), que acaba gerando um novo "spin off", em que Franz acaba sendo protagonista.
A narrativa acontece em recortes não cronológicos, o que provoca, em alguns momentos, uma breve dificuldade para percebermos em que período da trama está a narrativa (se antes, durante ou depois de certos eventos chave).
Eu recomendo, decididamente, a leitura do livro!
Curiosidades:
Tereza tem uma cadela chamada Karenin, que é uma mistura entre São Bernardo e Pastor Alemão. Talvez estas fotos ajudem a "enxergar" como ela é:
O nome de Karenin deriva de um livro do escritor russo Leon Tolstói, Anna Karenina, que Tereza estava lendo e, usou como uma ponte para se aproximar de Tomas.
O pano de fundo (que serve como motor para a história) é a Tchecoslováquia às voltas com a Primavera de Praga e suas consequências. Também há muitas referências ao presidente Tcheco desse período, Alexander Dubcek
Alexander Dubcek
Presidente da Tchecoslováquia em 1968
Documentário sobre a Guerra Fria - Primavera de Praga
Parte do comportamento do personagem Tomas é relacionado diretamente à uma obra de Beethoven, o quarteto de cordas op.135 (especialmente o último (4º) movimento)
Beethoven - Op. 135 IV
A personagem sabina tem um chapéu coco que é citado muitas vezes...
Melômano - Maníaco - ou especialista - por música.
Opus - Peça artística (especialmente musical) de um determinado autor, que recebe uma numeração, normalmente, cronológica.
Movimento - Normalmente uma música específica dentro de uma peça musical (que conta com momentos diferentes, como, por exemplo, introdução, clímax e fechamento) Dândi - Termo mais antigo para descrever o que hoje chamam de metrosseuxual, ou seja, alguém que dá valor exagerado à aparência. Mas no caso do termo dândi, pode haver também uma relação com a maneira como o tempo é gasto, apenas com lazer e ócio. Dispensário - É o que muita gente conhece como "postinho", um lugar com atendimento médico gratuito (não especializado) e distribuição de remédios (principalmente).
Um repuxo em Genebra
Repuxo - Jato d'água
Miasma - Odor pútrido Litania - Ladainha - oração em frases curtas com respostas repetidas Ascese - prática de negação das necessidades (jejum, por exemplo) para "purificação do espírito".
V de Vingança é uma Graphic Novel escrita por Alan Moore e desenhada por David Lloyd (Tony Weare também desenhou algumas páginas).
A obra fala de uma sociedade absolutista numa hipotética Inglaterra de um período posterior a uma guerra nuclear. O personagem V, busca vingança, dedicando sua vida à destruição do sistema que lhe causou muita dor.
Essa HQ é tão boa que foi retratada em filme e influenciou milhares de pessoas ao redor do mundo em várias manifestações realizadas em busca de sociedades mais justas (ao menos esta é a impressão que eu tenho!)
Fiz uma postagem num blog dedicado apenas a quadrinhos, veja aqui, e deixe seu comentário (deu um trabalho danado fazer...)
Também tinha feito uma postagem num Vlog, mas não ficou bom (eu não gostei, mas não estou a fim de fazer um novo vídeo sobre o tema). Espero que os próximo fiquem melhores... Se tiver coragem veja aqui.
O livro "Lendas do índio Brasileiro" não deveria ter esse título. Talvez o mais apropriado seria "Lendas do índio do Norte do Brasil (ou da Amazônia), pois as lendas (num total de 44) que fazem parte do livro organizado por Alberto da Costa e Silva e publicado pela Ediouro, são, quase todas, de tribos localizadas ao norte do Mato Grosso e a oeste de Tocantins.
Não é um livro que, a meu ver, sirva para ser lido com crianças, já que apresenta muitas narrativas em que a violência gratuita, contra animais e mulheres, aparece com muita frequência.
As lendas foram contadas e recontadas por viajantes, exploradores e padres e, talvez, até por isso, vez por outra, dá a impressão que são lendas contadas de forma a justificar o cristianismo e não as tradições reais dos povos indígenas.
Outro ponto que não me agradou no livro é que a imagem idílica (de sonho, do "bom selvagem") das tribos indígenas brasileiras é destruída (até em razão da violência).
Claro que as diferentes nações indígenas do Brasil apresentam tradições e cultura muito distintas entre si, mas fico com a impressão que este livro contribui pouco para o conhecimento real das diferentes características das diferentes etnias (e o provável é que não tenha sido a intenção original). Senti falta de um pequeno mapa indicando a procedência de cada lenda, além de não ter gostado da maior parte das ilustrações, tanto no aspecto da "beleza artística" quanto em relação a utilidade delas para ilustrar as lendas a que se relacionavam.
Um dos livros mais impressionantes que eu já li. Merecido o Prêmio Nobel de literatura de 1962¹ e, que serve como documento histórico, principalmente por descrever com profundidade a circunstância social nos Estados Unidos, especialmente a realidade de trabalhadores rurais e meeiros², durante a grande depressão, provocada pela crise de 29.
O livro "As Vinhas da Ira", escrito por John Steinbeck, lançado dez anos depois do "crash" da bolsa de valores de Nova York, narra a história da família Joad, de Oklahoma, em sua peregrinação em direção ao sudeste dos Estados Unidos (em meio a uma intensa migração populacional que levava muitas famílias do leste para o oeste), mais precisamente para a Califórnia, em busca de melhores condições de vida, já que suas terras haviam sido tomadas por banqueiros.
Quando todos os meeiros tiveram que sair de suas terras ocorreu neles um sentimento de tristeza profunda, a qual os fez perguntar do porque tantas pessoas de suas famílias morreram por aquelas terras se mais tarde elas seriam tomadas.
O autor apresenta a condição de vida de grande parte da população dos Estados Unidos, utilizando o êxodo da família Joad como exemplo, mostrando que o país está sobre os pés de pessoas boas, mas também de pessoas más, egoístas e hipócritas, que às vezes não fazem isso porque querem, mas porque precisam pensar primeiro em si mesmas e deixam o coletivo em segundo plano.
"Um trator é mal? A força que produz os profundos
sulcos nas terras não presta? Se ele fosse nosso,
não meu, nosso, prestaria" (pag. 187 - cap. 14)
O título do livro, "As Vinhas da Ira", pode ser interpretado como se as vinhas nutrissem a ira, o ódio e a raiva; não pelo trator que destruía suas propriedades, mas sim pelo Estado e pela elite estadunidense que não dava a mínima para como o povo vivia. O "jeito americano de viver" perdeu sentido e valor e o "sonho americano" tornou-se um pesadelo.
A viagem da família Joad se torna exaustiva no decorrer do enredo. Tendo que sobreviver com bem menos que o necessário, ou seja, pouca comida, pouco combustível e nenhum trabalho³; tendo que conviver com a corrupção, com a própria insatisfação e sobrevivendo apenas com a força da coletividade, que nesses momentos penosos foram o principal elemento de apoio, de sustentação.
(...) "Porque aí transforma-se o 'eu perdi minhas terras',
no 'nós perdemos nossas terras'. E aí que está o
perigo, pois que dois homens nunca se sentem
tão sozinhos e abatidos como um só"
(pag. 188 - cap. 14)
Muitas coisas ocorreram durante a viagem dos Joad, mas essa coletividade impediu que eles desistissem, por mais que durante o percurso, alguns membros da família tiveram que tomar rumos diferentes. Porque a ânsia pela autonomia faz com que as pessoas não se adaptem às rotinas e ideologias dos outros.
A crise de 29 marcou uma cicatriz no povo estadunidense. O livro trata nas entrelinhas, como se em senso comum, essa relação entre a crise e a condição de vida da população que não sabia em quem confiar, demorou muito para saber quem culpar. as manifestações para melhores conjunturas de trabalho, vieram, porém, tarde demais, sem o vigor suficiente para combater os policiais corruptos e o sistema que cada vez mais fragilizava os cidadãos.
Steinbeck não termina a história com um final feliz, como um conto de fadas da Disney. Ele mostra como o fim acaba justificando os meios e, que nem todo sofrimento tem fim sem a morte.
"O fantasma de Tom Joad" de Bruce Springsteen
Notas:
1- Quem recebeu o prêmio foi o escritor, em razão de toda a obra, não apenas por esse livro: Página dedicada a Steinbeck no sítio do Prêmio Nobel.
Claro que "As vinhas da Ira" é considerado o maior de seus livros.
(Também recomendo "Ratos e Homens").
Apenas como ilustração: questões retiradas do sítio do Prêmio Nobel:
Question: Was John Steinbeck awarded the Nobel Prize for one particular novel or for several?
Answer: John Steinbeck was awarded the Nobel Prize in Literature "for his realistic and imaginative writings, combining as they do sympathetic humour and keen social perception".
Question: What were John Steinbeck's major works?
Answer: Arguably Steinbeck's best-known works are East of Eden, Of Mice and Men and The Grapes of Wrath. East of Eden follows the intertwined lives and times of two families, the Trasks and the Hamiltons, from the American Civil War to World War I. Of Mice and Men is a story about two travelling ranch workers, George and Lennie, who are trying to earn enough money to buy their own farm. The Grapes of Wrath, considered by many to be his finest work, tells the story of Oklahoma tenant farmers who, unable to earn a living from the land, move to California where they became migratory workers.
2 - Meeiro é o trabalhador rural que troca o trabalho nas terras de um proprietário rural, pela possibilidade de fazer um roçado para si.
3 - Eventualmente os Joad trabalham em colheitas.
Essa postagem não é "música do dia", mas vai aí mais uma em homenagem ao livro.
Li o livro "O dilema de Einstein", que segundo a classificação da própria editora é um livro juvenil. link da editoraNão li o primeiro livro da série, que, me parece tem mais relação com o pensamento lógico. E como tudo neste mundo é comercial, o título do último livro lançado pega carona no título do primeiro.
O livro é IRRITANTE! Nunca havia sentido raiva de um autor ao ler um livro. Não o recomendo para ninguém (talvez seja útil para quem precise encontrar motivação para entrar, espiritualmente mais preparado, numa briga física).
A idéia é levantar pretensos "dilemas morais", e apresentar duas respostas possíveis e, depois comentar as respostas e descrever a "estrutura" moral do leitor. Você pode achar isso divertido ou pretensioso, mas não vi problema algum nisso. O problema é que as premissas são, muitas vezes irreais, e não levam em consideração detalhes importantes para a existência dos problemas proposto. Além disso, muitas vezes não há apenas dois caminhos a serem trilhados, quase sempre é possível seguir um meio termo (entre o 8 e o 80, existem outras 71 alternativas).
Eu acredito que um bom livro é aquele que faz com que o leitor pense em algo, ou de alguma forma, que nunca tenha pensado antes, ou que consiga verbalizar o que não havia sido verbalizado. No caso de literatura, que consiga sentir ou imaginar a história e sentir empatia pelo que está escrito.
Este livro só seria útil para aqueles que nunca pensaram nos problemas propostos (por isso é um livro juvenil), eu disse seria. O grande problema está na construção de que a resolução de um problema conta com apenas duas respostas. Sei que isso não está escrito lá, mas o que mais vale é o exemplo, sempre com duas únicas e absolutas respostas.
Às vezes temos uma primeira impressão diferente da que formamos ao longo do tempo. Isso acontece com pessoas, situações e livros. E foi o que aconteceu comigo em relação a este livro que, a princípio, deveria tratar de "Pré-história" (termo que merece um post à parte).
Fiquei muito descontente em função de que nele, encontramos muito pouco a respeito do período anterior à civilização em si - mas isso é justificado se lermos o título em inglês (Pré-história: Uma introdução MUITO breve) (em português foi editado pela L&PM, mas é apenas "Pré-história"). O autor aborda historiografia, antropologia, psicologia, lingüística, geografia, arte, entre outras disciplinas, num volume muito pequeno...
O curioso é que o conteúdo trata mais da visão do autor sobre como funcionam as relações e o desenvolvimento humano. Em geral coisas que eu já pensava, e é aí que está o encanto que tive por ele. Pensava, mas não verbalizava.
Esta postagem vai receber ajustes a partir deste ponto, quando estiver concluído, apagarei esta frase:
(por hora vai funcionar como um bloco de apontamentos) se preferirem, registrando comentários, posso fazer postagens separadas...
Geologia / história: Em função das eras glaciais, grande parte da água do mar estava congelada, o que facilitou o deslocamento dos hominídeos e humanos entre ilhas e continentes, não só em função de "pontes", mas também em razão do nível dos oceanos estar, necessariamente, mais baixos.
Psicologia / sociologia / biologia: Somos "diferentes" em relação a outros animais muito em função da relação entre os bens materiais e nosso papel social. A posse de certo objeto ou conhecimento define a posição do indivíduo (e suas relações) nas sociedades humanas, o que não ocorre com outros animais sociais.
A disponibilidade de certos bens e a forma como eles foram usados ao longo do tempo definem a cultura e não possíveis fatores genéticos. "Não há genes exclusivamente humanos em quantidade suficiente para que se possa encontrar aí uma explicação para a complexidade cultural" (pag. 36).
Sociologia / política / economia: Num trecho, ao explicar como os dados são tratados em investigações arqueológicas, o autor faz referência ao mundo moderno (quando alguns arqueólogos e estudantes estudaram o lixo de parte dos habitantes de Tucson (EUA). O estudo demonstrou que os mais pobres tendem a gastar mais em supermercados do que os mais abastados, pela simples razão de que não podem comprar embalagens maiores e proporcionalmente mais baratas, "(...) o dinheiro era curto, eles compravam o que podiam e quando podiam. (...)" (pag. 43). Mas é pior! Durante um período de racionamento de carne em 1973, houve um considerável aumento no desperdício de carne por parte das famílias mais ricas, pois como podia faltar mercadoria, essas famílias compravam muito mais do que podiam consumir e acabavam tendo que jogar fora o excesso.
Psicologia / sociologia / economia: há indícios que em vários grupos "pré-históricos", os indivíduos trocavam presentes para manter relações sociais com outros indivíduos e, provavelmente para estabelecer relações de poder. Não retribuir um presente poderia significar a pouca importância dada ao convívio social e, possivelmente a exclusão daquele que não retribuiu.
História / biologia: o autor revela que não há semelhanças genéticas entre os homens modernos e os Homo Neanderthalensis, ao mesmo tempo em que há pouquíssima variabilidade genética entre todas as populações humanas, o que aponta para uma ascendência comum para todos os homens.
Antropologia / sociologia: muitas pessoas consideram os aborígenes australianos, atrasados. Talvez os humanos mais próximos a uma vida em que os humanos/hominídeos não poderiam ser diferenciados de outros animais, mas "(...) Os povos aborígenes australianos foram descritos pelo antropólogo Lévi-Strauss como os virtuosos da mente humana, devido à enorme quantidade de conhecimento genealógico e cosmológico que construíram e preservaram, (...)" (pag. 65).
História / mitologia / religião / sociologia: os mitos (e as religiões) surgiram para organizar a sociedade. "(...) A grande diferença entre ciência e magia é que a primeira presta pouca atenção à condição espiritual ou moral dos participantes humanos, o que para os magos é vital (...)". Na magia ou religião também há a utilização de bens materiais para reafirmar posições de poder e por vezes a forma ou a cor representam o "espírito" do objeto.
Psicologia: "Muito do que somos (...) é (...) o modo como agimos"(pag. 100). Biologia / psicologia / arte.Em vários pontos e de diferentes formas, o autor aborda uma questão fundamental para o desenvolvimento da humanidade, a inteligência. Ele diz que não há apenas uma inteligência intelectual e que inteligências diferentes, como a espacial, foram tão importantes para a evolução humana quanto aquela inteligência "que vai da retenção de informações visando à resolução de problemas a um pensamento inovador e criativo e ações não realizadas previamente" (pag. 102). De certa forma, especialmente quando relacionamos a inteligência à criação de algo novo, o trecho a seguir tem relação com o parágrafo escrito acima "Um estado de inspiração é uma experiência emocional e intelectual poderosa que deriva de um novo sentimento pelo mundo e novas possibilidades de traduzir o mundo em palavras e objetos." (pag. 106). O autor, repetidamente, aponta questões estéticas e a forma como diferentes povos tem diferentes interpretações a respeito de cores, formas ou sons e como construímos cultura em torno destas questões. Ele afirma também que inteligência envolve todos os sentidos e não apenas o pensamento.
História / religião: "Todas as nossas identidades e histórias são em parte baseadas em mitos, apoiando-se em princípios não analisados e pressupostos tomados como verdades absolutas. Quanto mais recuamos no tempo, mais nossos mitos florescem, não controlados pelo conhecimento direto. (...) Em essência, o passado nos interessa em função do presente; não significa nada em si mesmo. Para conferir ao passado máximo poder no presente devemos celebrar e ressaltar suas propriedades mitológicas, (...)." (pag. 132 e 133).
Vocabulário novo:
Leitmotiv: motivo ou motivação para justificar algo. Seria o Cristo do "pegar pra Cristo", mas num sentido não negativo (pode ser uma frase, um pensamento, uma explicação, etc. que provoquem ações ou expectativas).
Ubiqüidade: estar presente em vários lugares ao mesmo tempo (diferente de onipresença que é estar em TODOS os lugares) Wetware: neologismo que identifica um terceiro elemento na relação Hardware - Software, o usuário. Numa outra comparação, diria que o Hardware é o carro, o Software é o caminho e o Wetware é o motorista (talvez o passageiro também).